Os Silvestres e a Nossa Saúde – Brucelose transmitida por cetáceos

31 de dezembro de 2018

Por Elisângela de Albuquerque Sobreira
Médica Veterinária e mestre em Ecologia e Evolução pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutora em Animais Selvagens pela Universidade Estadual Paulista (Unesp/Botucatu). Já foi Gerente do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Anápolis (GO), onde fundou e mantém o Centro Voluntário de Reabilitação de Animais Selvagens (CEVAS)
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Semana passada recebemos a notícia de que o Japão retornará a caçar baleias comercialmente a partir do ano que vem. É uma notícia desastrosa tanto no âmbito da conservação da biodiversidade como no da saúde pública.

As baleias podem transmitir várias doenças, entre elas a brucelose, que é uma zoonose presente na lista de enfermidades de 2011 da Organização Mundial para Saúde Animal – OIE. Ela é classificada como doença transmissível considerada de importância socioeconômica e/ou para a saúde pública e com consequências no comércio internacional de animais e seus produtos.

As linhagens de Brucella dos mamíferos marinhos foram isoladas e caracterizadas em 1994, tanto fenotipicamente como por meio de diferentes métodos de tipagem molecular. Isso levou à classificação das cepas (grupo de descendentes com um ancestral comum que compartilham semelhanças morfológicas ou fisiológicas) de Brucella dos mamíferos marinhos em duas espécies, que são as B. ceti e B. pinnipedialis. Essas espécies são definidas por padrões de metabolismo oxidativo e pela exigência de CO2 para o crescimento, e uma série de subgrupos definida por métodos complementares de análise molecular. A Brucella isolada de mamíferos marinhos também é patogênica para os humanos.

A espécie Brucella ceti já foi isolada em soro sanguíneo de cetáceos das famílias Phocoenidae (boto), Delphinidae (golfinhos, orcas), Monodontidae (belugas), Balaenidae (baleia-franca) e Balaenopteridae (baleia-azul) através da reação em cadeia de polimerase (Guzmán-Verri et al., 2012).

Brucella ceti e Brucella pinnipedialis disseminam-se principalmente para os órgãos e tecidos, como o baço, gânglios linfáticos, útero, testículos, glândula mamária e tecido nervoso, através de inclusões intrafagocitárias. No sistema cardiovascular, a brucelose apresenta como manifestações clínicas, endocardite e espessamento da válvula mitral, apresentando um nódulo vegetativo contendo zonas com fibrina adjacente à superfície. A superfície da válvula mitral pode também demonstrar calcificação distrófica e colónias bacterianas, degeneração do miocárdio com edema perivascular e fibrose envolvendo o pericárdio. Lesões no tegumento e camada subcutânea de gordura são comuns, além de abcessos sobre a barbatana dorsal com possível necrose no local afetado. Podem apresentar pneumonia intersticial, broncopneumonia, microcalcificação distrófica, hiperemia (aumento da quantidade de sangue circulante num determinado local), agregados leucocitários no tecido conjuntivo periférico aos brônquios e abcessos pulmonares.

Os cetáceos são animais que passam toda a sua vida no mar e, como tal, o seu cérebro está especializado para a capacidade natatória. Por este motivo, a manifestação neurológica de Brucella ceti é a mais evidente uma vez que provoca um quadro clínico de neurobrucelose com natação errática.

A brucelose nos humanos geralmente é confundida com gripe recorrente, sendo observadas fadiga, cefaléia, dores musculares e sudorese. Algumas das complicações mais frequentes são tromboflebite, espondilite e artrite periférica. O quadro agudo pode evoluir para toxemia, trombocitopenia, endocardite e outras complicações, podendo levar à morte.

Ações e medidas de vigilância sanitária para reprimir a atividade clandestina de abate de animais para consumo humano devem ser postas em execução como objetivo de prevenir o risco potencial de infecção brucélica zoonótica. A inspeção sanitária dos produtos de origem animal é uma medida de controle importante que condenam as carcaças com lesões extensas de brucelose e, nos casos de lesões localizadas, encaminham-se as carcaças à esterilização pelo calor depois de removidas e condenadas as partes atingidas.

A educação em saúde, com difusão dos riscos de zoonoses, as orientações para profissionais e pescadores quanto a utilização de equipamentos de proteção individual são primordiais para prevenção dessa zoonose.

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